MIBR na ESWC 2006: o legado.

2 março 2017 | 5123 | 1
MIBR na ESWC 2006: o legado.

Em 2006, a equipe carioca Made in Brazil, a mibr, foi a grande campe√£ em uma competi√ß√£o mundial de Counter-Strike. Um feito t√£o not√°vel para o e-Sport brasileiro, que levaria 10 anos para que voltasse a acontecer ‚Äď em 2016, com a Luminosity Gaming faturando a Major League Columbus.

Mas aí, um jovem padwan, que acredita que sempre existiu molotov em CS, pode achar que o título da mibr não foi nada demais e que é coisa de tiozão nerd nostálgico ficar futucando essas histórias lá dos tempos de mouse com bolinha.

Bem, se lembrarmos de alguns detalhes daquele título de 2006, veremos que existem sim motivos para futucar essa velha história. Trata-se de legado. E se hoje você, jovem padwan, pode jogar CS no Brasil do jeito que joga, e acompanhar os campeonatos profissionais do jeito que acompanha, acredite, aquele título tem algo a ver com isso.

Orgulho da Comunidade

O m√™s de julho de 2006 come√ßou tr√°gico para o esporte nacional. O Brasil era eliminado da Copa do Mundo da Alemanha, e justo quando a gente julgava ver o hexa surgindo no horizonte ‚Äď mas o que vimos mesmo foi o Roberto Carlos ajeitando eternamente seu mei√£o enquanto o T. Henry corria para a alegria. Por√©m, no meio daquele pranto futebol√≠stico generalizado, um ou outro portal de not√≠cias na internet divulgou uma nota r√°pida, curta, de poucas linhas, que tirava o foco da sele√ß√£o de futebol. Nessa nota, diziam que um time brasileiro do game Counter-Strike acaba de faturar um in√©dito campeonato mundial, a Electronic Sports World Cup ‚Äď a ESWC para os mais chegados.

E aí a galera que manjava dos headshots e dos rushes em dust2 foi à loucura.

Em meados dos anos 2000, o cen√°rio do CS competitivo no Brasil ainda era bem subdesenvolvido. Campeonatos, organiza√ß√£o, patroc√≠nio, uma verdadeira comunidade‚Ķ coisas um tanto primitivas ainda. Para muitos jogadores, o mais pr√≥ximo dum competitivo eram os campeonatinhos que a Lan House da esquina organizava cujo pr√™mio, se muito, era um mouse gamer, mas quase sempre eram algumas horas gr√°tis de jogatina. E assim, o e-Sport nacional era misto de sonho e piada: os gamers ouviam falar dos pro-players patrocinados e sonhavam chegar l√°, mas eram motivo de goza√ß√£o caso comentassem isso com algu√©m (‚ÄúAh, sim, claro, v√£o te pagar pra ficar jogando. V√£o te dar uma bola quadrada tamb√©m?‚ÄĚ).

Al√©m do que, naquela √©poca, ser gamer n√£o tinha nada de glamouroso. A m√≠dia ainda veiculava not√≠cias est√ļpidas sobre os riscos de se jogar videogames e afins ‚Äď ou virar√≠amos seres ac√©falos ou ent√£o assassinos em s√©rie.

Pior ainda: dedicar tempo e dinheiro ao CS era ser taxado de nerd loser, somente uns degraus acima de quem dedicava tempo e dinheiro a Tibia.

√Č, meu amigo‚Ķ tempos dif√≠ceis.

Portanto, quando ficamos sabendo que tinha uns brasileiros levando um campeonato mundial, e ainda embolsando umas doletas nesse processo, foi tipo ‚ÄúUou! O sonho √© real, cara!‚ÄĚ. Foi o exemplo de que algo de s√©rio e maior poderia acontecer a partir desse jogo, e que n√≥s, jogadores, n√£o precis√°vamos nos sentir mal em participar desse universo. Afinal, n√£o era t√£o coisa de crian√ßa como diziam.

Correndo por fora

Em 2006, quando a mibr levou a ESWC, a equipe j√° tinha alguns anos de estrada e competi√ß√Ķes. Ainda n√£o tinha o renome de campe√£ mundial, mas j√° se aventurara em √°guas internacionais. Contudo, apesar do curr√≠culo, a equipe brasileira chegou na ESWC meio que correndo por fora.

Naqueles anos, a supremacia europeia no CS j√° existia. Para se ter uma ideia, nas estat√≠sticas do Top 40 jogadores que mais faturaram grana com o game em 2006, 25 (mais da metade) eram europeus. Depois vinham 9 norte-americanos, 5 chineses, e‚Ķ 1 brasileiro, na quadrag√©sima posi√ß√£o, o Raphael ‚Äúcogu‚ÄĚ Camargo.

Ent√£o n√£o, a mibr n√£o era exatamente uma favorita. Com equipes advers√°rias vindas de pa√≠ses como Su√©cia e Alemanha, os brasileiros n√£o lideravam as apostas ‚Äď e isso literalmente, pois na grande final as apostas ficaram quase 3:1 contra a equipe brasileira.

Mas aí, eis que a campanha da mibr foi quase perfeita. Das 11 partidas disputadas, só teve uma derrota. E para que a derrota não manchasse aquele título, ela parece ter sido encomendada graciosamente pelo destino: a mibr perdeu para a sueca fnatic na fase de grupos, mas a reencontrou justamente na final, quando provou o doce gosto da revanche.

E é preciso lembrar que durante essa campanha alguns jogadores hoje laureados foram então batidos pela mibr. Para citar alguns, a dupla polonesa Taz e Neo, hoje na poderosa Virtus.Pro, naquela época foram batidos jogando pela Pentagram. E também forest, hoje no Ninjas in Pyjamas, naquela época estava jogando pelo fnatic e teve de se contentar com um vice-campeonato.

Portanto, 5 brazucas tocando o terror dentro da elite do e-Sport, bem, isso certamente √© algo que vale a pena lembrar ‚Äď e respeitar.

A Final

O cenário: de_inferno. O inimigo: fnatic, uma das equipes favoritas ao título. O resultado: 16:08 para a mibr.

Pois é. Não foi exatamente um passeio, mas também não
foi o mais difícil dos jogos.

Nas line-up brasileira tínhamos:

Raphael "cogu" Camargo
Renato "nak" Nakano
Bruno "ellllll" Ono
Carlos "KIKOOO" Segal
Lincoln "fnx" Lau

√Č, se voc√™ n√£o sabia, fique sabendo que fnx, com 16-fucking-anos estava naquela final, e estaria tamb√©m em 2016, quando a Luminosity Gaming trouxe outro caneco mundial pra casa.

Um pequeno episódio marcante daquela final envolveu forest, KIKOOO, e uma granada milimetricamente jogada direto nos pés do forest (no vídeo sugerido ao final do texto, a jogada está no 12:40). Vale a pena assistir.

E vale a pena recuperar o relato em primeira mão sobre a final, que foi publicado no site da mibr na época.

Começamos de TR, vencemos o pistol com linda jogada de KIKOOOO. Abrimos uma vantagem de 5-0, até que a equipe sueca mostrou que também estava afim de jogo. Administrando a vantagem, e trocando rounds, conseguimos fechar o lado em 9-6.

De CT, que lado brilhante. Já no pistol, Cogu mostrou para o mundo o motivo pelo qual já foi indicado um dos melhores, matando 4. Aí, a equipe se fechou, e ficou bem complicado para nosso adversário furar a barreira. Fechamos o segundo lado em 7-0.

E assim chegava ao fim a lenda do primeiro mundial de CS que o Brasil faturava…

Seria mesmo o fim?

Ser gamer no Brasil não é e nem nunca foi fácil. Não importa por qual lado você olhe, dos custos à reputação, é uma escolha ingrata. Mas, acredite, já foi bem mais complicado do que é hoje, e são esses feitos como o da mibr que ajudaram a descomplicar.

A vit√≥ria na ESWC 2006 n√£o inventou o CS no Brasil, nem √© a √ļnica respons√°vel pela crescente populariza√ß√£o do game no Brasil nos anos posteriores. Entretanto, se hoje podemos assistir a partidas em canais esportivos oficiais, e acompanhar de perto o cen√°rio competitivo ‚Äď e com chances concretas de participar desse cen√°rio competitivo como jogador -, bem, aquele t√≠tulo da mibr tem algo a ver com isso.

Como acontece com qualquer esporte, s√£o essas hist√≥rias de supera√ß√£o e sucesso que contribuem para popularizar uma modalidade. E por mais longo e complexo que seja esse processo de populariza√ß√£o, √© justo prestar mem√≥rias aos precursores, √†queles caras que precisaram fazer tudo no jeit√£o fundo de quintal porque o jeit√£o fundo de quintal era o √ļnico dispon√≠vel at√© ent√£o.

E é aqui que o título mundial da mibr entra.

Para al√©m da nostalgia dos tioz√Ķes nerds dos tempos de mouse com bolinha ‚Äď ah, baixar as partidas em demos, acompanhar o placar no IRC, jogar CS na vers√£o 1.6‚Ķ ai ai -, al√©m desse nostalgia, aquele t√≠tulo foi um pedacinho de orgulho a mais para a comunidade CS brasileira; foi tamb√©m a populariza√ß√£o do esporte, e a demonstra√ß√£o de que mesmo no Brasil √© poss√≠vel ser gamer profissional.

O título nos deixou um legado, a todos nós fãs de CS, e é por isso que é preciso lembrar daquela ESWC de 2006 e da campanha foda da mibr.

Para quem quiser ver um compilado de imagens daquele campeonato, segue um (dos v√°rios) v√≠deo dispon√≠vel no YouTube, com os melhores lances de quase todas as partidas ‚Äď a desagrad√°vel surpresa das demos corrompidas estragando os registros hist√≥ricos rs.

https://www.youtube.com/watch?v=Kztz3lzt4fA
 

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