MIBR na ESWC 2006: o legado.

Em 2006, a equipe carioca Made in Brazil, a mibr, foi a grande campeã em uma competição mundial de Counter-Strike. Um feito tão notável para o e-Sport brasileiro, que levaria 10 anos para que voltasse a acontecer – em 2016, com a Luminosity Gaming faturando a Major League Columbus.

Mas aí, um jovem padwan, que acredita que sempre existiu molotov em CS, pode achar que o título da mibr não foi nada demais e que é coisa de tiozão nerd nostálgico ficar futucando essas histórias lá dos tempos de mouse com bolinha.

Bem, se lembrarmos de alguns detalhes daquele título de 2006, veremos que existem sim motivos para futucar essa velha história. Trata-se de legado. E se hoje você, jovem padwan, pode jogar CS no Brasil do jeito que joga, e acompanhar os campeonatos profissionais do jeito que acompanha, acredite, aquele título tem algo a ver com isso.

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Orgulho da Comunidade

O mês de julho de 2006 começou trágico para o esporte nacional. O Brasil era eliminado da Copa do Mundo da Alemanha, e justo quando a gente julgava ver o hexa surgindo no horizonte – mas o que vimos mesmo foi o Roberto Carlos ajeitando eternamente seu meião enquanto o T. Henry corria para a alegria. Porém, no meio daquele pranto futebolístico generalizado, um ou outro portal de notícias na internet divulgou uma nota rápida, curta, de poucas linhas, que tirava o foco da seleção de futebol. Nessa nota, diziam que um time brasileiro do game Counter-Strike acaba de faturar um inédito campeonato mundial, a Electronic Sports World Cup – a ESWC para os mais chegados.

E aí a galera que manjava dos headshots e dos rushes em dust2 foi à loucura.

Em meados dos anos 2000, o cenário do CS competitivo no Brasil ainda era bem subdesenvolvido. Campeonatos, organização, patrocínio, uma verdadeira comunidade… coisas um tanto primitivas ainda. Para muitos jogadores, o mais próximo dum competitivo eram os campeonatinhos que a Lan House da esquina organizava cujo prêmio, se muito, era um mouse gamer, mas quase sempre eram algumas horas grátis de jogatina. E assim, o e-Sport nacional era misto de sonho e piada: os gamers ouviam falar dos pro-players patrocinados e sonhavam chegar lá, mas eram motivo de gozação caso comentassem isso com alguém (“Ah, sim, claro, vão te pagar pra ficar jogando. Vão te dar uma bola quadrada também?”).

Além do que, naquela época, ser gamer não tinha nada de glamouroso. A mídia ainda veiculava notícias estúpidas sobre os riscos de se jogar videogames e afins – ou viraríamos seres acéfalos ou então assassinos em série.

Pior ainda: dedicar tempo e dinheiro ao CS era ser taxado de nerd loser, somente uns degraus acima de quem dedicava tempo e dinheiro a Tibia.

É, meu amigo… tempos difíceis.

Portanto, quando ficamos sabendo que tinha uns brasileiros levando um campeonato mundial, e ainda embolsando umas doletas nesse processo, foi tipo “Uou! O sonho é real, cara!”. Foi o exemplo de que algo de sério e maior poderia acontecer a partir desse jogo, e que nós, jogadores, não precisávamos nos sentir mal em participar desse universo. Afinal, não era tão coisa de criança como diziam.

Correndo por fora

Em 2006, quando a mibr levou a ESWC, a equipe já tinha alguns anos de estrada e competições. Ainda não tinha o renome de campeã mundial, mas já se aventurara em águas internacionais. Contudo, apesar do currículo, a equipe brasileira chegou na ESWC meio que correndo por fora.

Naqueles anos, a supremacia europeia no CS já existia. Para se ter uma ideia, nas estatísticas do Top 40 jogadores que mais faturaram grana com o game em 2006, 25 (mais da metade) eram europeus. Depois vinham 9 norte-americanos, 5 chineses, e… 1 brasileiro, na quadragésima posição, o Raphael “cogu” Camargo.

Então não, a mibr não era exatamente uma favorita. Com equipes adversárias vindas de países como Suécia e Alemanha, os brasileiros não lideravam as apostas – e isso literalmente, pois na grande final as apostas ficaram quase 3:1 contra a equipe brasileira.

Mas aí, eis que a campanha da mibr foi quase perfeita. Das 11 partidas disputadas, só teve uma derrota. E para que a derrota não manchasse aquele título, ela parece ter sido encomendada graciosamente pelo destino: a mibr perdeu para a sueca fnatic na fase de grupos, mas a reencontrou justamente na final, quando provou o doce gosto da revanche.

E é preciso lembrar que durante essa campanha alguns jogadores hoje laureados foram então batidos pela mibr. Para citar alguns, a dupla polonesa Taz e Neo, hoje na poderosa Virtus.Pro, naquela época foram batidos jogando pela Pentagram. E também forest, hoje no Ninjas in Pyjamas, naquela época estava jogando pelo fnatic e teve de se contentar com um vice-campeonato.

Portanto, 5 brazucas tocando o terror dentro da elite do e-Sport, bem, isso certamente é algo que vale a pena lembrar – e respeitar.

A Final

O cenário: de_inferno. O inimigo: fnatic, uma das equipes favoritas ao título. O resultado: 16:08 para a mibr.

Pois é. Não foi exatamente um passeio, mas também não
foi o mais difícil dos jogos.

Nas line-up brasileira tínhamos:

Raphael “cogu” Camargo
Renato “nak” Nakano
Bruno “ellllll” Ono
Carlos “KIKOOO” Segal
Lincoln “fnx” Lau

É, se você não sabia, fique sabendo que fnx, com 16-fucking-anos estava naquela final, e estaria também em 2016, quando a Luminosity Gaming trouxe outro caneco mundial pra casa.

Um pequeno episódio marcante daquela final envolveu forest, KIKOOO, e uma granada milimetricamente jogada direto nos pés do forest (no vídeo sugerido ao final do texto, a jogada está no 12:40). Vale a pena assistir.

E vale a pena recuperar o relato em primeira mão sobre a final, que foi publicado no site da mibr na época.

Começamos de TR, vencemos o pistol com linda jogada de KIKOOOO. Abrimos uma vantagem de 5-0, até que a equipe sueca mostrou que também estava afim de jogo. Administrando a vantagem, e trocando rounds, conseguimos fechar o lado em 9-6.

De CT, que lado brilhante. Já no pistol, Cogu mostrou para o mundo o motivo pelo qual já foi indicado um dos melhores, matando 4. Aí, a equipe se fechou, e ficou bem complicado para nosso adversário furar a barreira. Fechamos o segundo lado em 7-0.

E assim chegava ao fim a lenda do primeiro mundial de CS que o Brasil faturava…

Seria mesmo o fim?

Ser gamer no Brasil não é e nem nunca foi fácil. Não importa por qual lado você olhe, dos custos à reputação, é uma escolha ingrata. Mas, acredite, já foi bem mais complicado do que é hoje, e são esses feitos como o da mibr que ajudaram a descomplicar.

A vitória na ESWC 2006 não inventou o CS no Brasil, nem é a única responsável pela crescente popularização do game no Brasil nos anos posteriores. Entretanto, se hoje podemos assistir a partidas em canais esportivos oficiais, e acompanhar de perto o cenário competitivo – e com chances concretas de participar desse cenário competitivo como jogador -, bem, aquele título da mibr tem algo a ver com isso.

Como acontece com qualquer esporte, são essas histórias de superação e sucesso que contribuem para popularizar uma modalidade. E por mais longo e complexo que seja esse processo de popularização, é justo prestar memórias aos precursores, àqueles caras que precisaram fazer tudo no jeitão fundo de quintal porque o jeitão fundo de quintal era o único disponível até então.

E é aqui que o título mundial da mibr entra.

Para além da nostalgia dos tiozões nerds dos tempos de mouse com bolinha – ah, baixar as partidas em demos, acompanhar o placar no IRC, jogar CS na versão 1.6… ai ai -, além desse nostalgia, aquele título foi um pedacinho de orgulho a mais para a comunidade CS brasileira; foi também a popularização do esporte, e a demonstração de que mesmo no Brasil é possível ser gamer profissional.

O título nos deixou um legado, a todos nós fãs de CS, e é por isso que é preciso lembrar daquela ESWC de 2006 e da campanha foda da mibr.

Para quem quiser ver um compilado de imagens daquele campeonato, segue um (dos vários) vídeo disponível no YouTube, com os melhores lances de quase todas as partidas – a desagradável surpresa das demos corrompidas estragando os registros históricos rs.

 

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Ssociólogo formado, nerd confesso, apaixonado por CS desde o 1.3, e já perdeu muitas horas em lan houses gritando ' é B porra, é B!', mas hoje prefere a tranquilidade de escrever sobre o game.

1 Comentário

  1. Texto bem escrito e informações precisas. Parabéns mesmo! E esse título tem que ser respeitado para sempre no Brasil!

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